domingo, 26 de outubro de 2008

A primeira vez que entrei nessa cafeteria nada me chamou demais a atenção.
Lembro-me do primeiro café que aqui bebi, há uns três anos passados. Lembro-me do gosto amargo do atraso de Silvia, adocicado com o chocolate quente da expectativa de notícias que ela iria me dar em pouco mais de vinte minutos. Lembro-me também da forma educada em que os garçons se portavam, tão mecanicamente sorridentes.
O problema da cafeteria é que fica numa avenida movimentadíssima.
Nunca gostei de avenidas.
Acho que evito ruas largas desde a infância. Pensando nisso me vem a lembrança de meus olhos atentos aos movimentos dos automóveis e as mãozinhas confiantes à de minha mãe. Detestava ouvir suas recomendações repetitivas e sempre apressava o passo afim de livrar-me de tamanha atenção.
Eu nunca fui de pontualidades, mas naquele dia resolvi calar os reclames de Silvia, que um dia antes do encontro me assustara com palavras apressadas.
Pensei nos seus dedos trêmulos nos dígitos do telefone, ela com a voz falhando emocionada com necessidade de desabafar.
É engraçado que ainda me lembro do seu jeito sereno contrastando com os cabelos desgrenhados de passos largos. Eu não me esqueço nunca do sorriso amplo, da ternura em que ela me anunciara a notícia "Vou me casar, Anita".
Não poderia descrever minha expressão. Não depois de todo esse tempo, nem de toda a reviravolta desses três anos e alguns meses. Até porque é tempo demais para minha memória falha.
Acho que foi naquele dia em que vi o letreiro discreto, enquanto a esperava.
Não li o que estava escrito ali, provavelmente envolvida com qualquer asneira que meus pensamentos julgassem válidos, ou talvez distraída pela ilustração de uma pequena xícara coloridinha destacando bem o anúncio, ou então porque eu realmente não precisava enxergar sobre quaisquer serviços até aquele momento.
A necessidade de trabalhar por algum motivo que não entendo, nunca me assustou.
Eu nem preciso forçar a memória para ver-me vestida pela primeira vez do avental-padrão que acentuava justamente a minha cintura..
Por algum motivo eu estava fadada a esses préstimos.
E se o faço com tanto zelo é porque acho que a verdade é que sempre gostei de servir.
(...)

Um comentário:

Gabriela Galvão disse...

E se for a um moreno alto bonito e sensual, eu acho ainda melhor, hahah

Bisous